Iniciativas do Legislativo municipal e organização da categoria destacam a importância dos artesãos para a economia e a preservação das tradições locais
Da Redação
A valorização do artesanato em Cuiabá começou a ganhar força ainda em 2004, quando o então vereador Luiz José Barão de Arruda Viégas apresentou um projeto de lei com o objetivo de reconhecer oficialmente o trabalho dos artesãos da capital. À época, ele destacou que esses profissionais eram, na essência, os verdadeiros artistas populares, responsáveis por manter vivas as tradições culturais e transmitir a identidade do povo cuiabano por meio de suas peças.
Na justificativa do projeto, Barão Viégas chamou atenção para a falta de reconhecimento institucional da categoria, mesmo diante do grande número de pessoas que já viviam da atividade na cidade. O cenário, segundo ele, exigia mais visibilidade e apoio por parte do poder público.
A proposta resultou na criação da Lei Municipal nº 4.703, sancionada em 29 de dezembro daquele ano, marcando um passo importante na valorização da atividade. Na época, a referência internacional para a celebração do Dia do Artesão já existia: o dia 19 de março, associado a São José, conhecido como carpinteiro. No Brasil, no entanto, a oficialização da data só viria anos depois, em 2012, seguida pela regulamentação da profissão em 2015.
O artesanato, por sua natureza, carrega características únicas. Produzido manualmente, sem padronização industrial, cada peça traz identidade própria. Para o escritor cuiabano Roberto Loureiro, trata-se de uma manifestação genuína da cultura popular, que muitas vezes nasce de necessidades práticas do cotidiano e, com o tempo, se transforma em expressão artística.
Apesar de sua relevância cultural, o setor enfrenta desafios. A produção em larga escala, impulsionada pela indústria, reduziu o espaço do artesanato no mercado. Além disso, a diferença de preços entre produtos industrializados e peças feitas à mão ainda dificulta a comercialização. Mesmo assim, a atividade resiste, especialmente em regiões turísticas, onde encontra um público interessado em produtos exclusivos e com valor cultural agregado.
Hoje, o trabalho dos artesãos também se organiza coletivamente. Um exemplo é a Associação Homens e Mulheres de Fibra, criada em 2019 em Cuiabá e que reúne cerca de 300 profissionais. Representando o grupo, Sônia Aparecida de Freitas aponta que ainda há carência de apoio mais efetivo do poder público, principalmente na oferta de espaços adequados para exposição e venda das peças. Segundo ela, locais com maior fluxo de turistas são essenciais para fortalecer a renda dos trabalhadores.
Mais recentemente, novas iniciativas têm buscado ampliar esse reconhecimento. A criação do “Selo Empresa Amiga do Artesão”, instituído por lei municipal, surge como uma estratégia para incentivar empresas a apoiarem o setor. A proposta prevê que estabelecimentos disponibilizem espaços para exposição dos produtos, contribuindo diretamente para a divulgação e comercialização do artesanato local.
A medida reforça uma linha de atuação que já vinha sendo construída ao longo dos anos: a de reconhecer o artesanato não apenas como atividade econômica, mas como patrimônio cultural. Ao incentivar a produção e o consumo dessas peças, o município também investe na preservação da própria história e identidade cuiabana.