Após perder a mãe por erro médico, Dr. Marcos Paulo Goese jurou dedicar a vida a cuidar de quem mais precisa — e cumpre a promessa todos os dias, dentro e fora do consultório
UBS CPA III
Reportagem : Jota Moreira
Na rotina da atenção básica em Cuiabá, onde a demanda é alta e os recursos muitas vezes são limitados, um médico da família tem chamado atenção pela postura que vai além da obrigação contratual. O Dr. Marcos Paulo Goese, que atua na UBS do CPA III, cumpre rigorosamente sua carga horária, atende dezenas de pacientes por dia, acompanha casos crônicos, orienta famílias e, mesmo depois de encerrar o expediente, segue para visitas domiciliares a moradores que não conseguem se deslocar até a unidade.
A decisão de fazer mais do que o protocolo exige não nasceu apenas do compromisso profissional. Ela carrega uma história pessoal marcada pela dor. Marcos Paulo perdeu a mãe após um erro médico em um hospital. O episódio, que poderia ter gerado revolta permanente ou afastamento da área da saúde, transformou-se em combustível para um propósito.
“Eu fiz um juramento quando me formei. Mas antes disso, fiz um juramento pessoal, quando perdi minha mãe. Prometi que um dia seria um médico dedicado, que trataria as pessoas com respeito, atenção e responsabilidade. Que ninguém sairia do meu consultório sem ser ouvido”, afirmou à reportagem.
Filho de uma dona de casa e de um caminhoneiro, ele cresceu em uma realidade simples. Conheceu de perto as dificuldades de quem depende exclusivamente do sistema público de saúde. “Sou filho de uma dona de casa, meu pai era caminhoneiro. A gente não tinha luxo. Eu determinei que um dia seria médico. Pedi a Deus, estudei, lutei, e Ele cumpriu o meu pedido”, disse.
Na UBS do CPA III, pacientes relatam que o atendimento vai além da prescrição. Há escuta, explicação detalhada, contato visual, paciência. Para muitos idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, isso representa mais do que consulta: é dignidade.
Após o horário de trabalho, quando poderia seguir para casa, o médico organiza visitas a pacientes acamados, idosos sozinhos e pessoas com mobilidade reduzida. São casos que, se não acompanhados, podem evoluir para internações evitáveis. Ele revisa medicações, verifica pressão arterial, ajusta tratamentos e orienta familiares.
A prática reforça um dos pilares da Estratégia Saúde da Família: a proximidade com a comunidade. Mas, na prática cotidiana de muitas unidades, a sobrecarga dificulta esse acompanhamento contínuo. No caso de Marcos Paulo, a decisão de manter o cuidado mesmo fora do expediente é pessoal.
Colegas de trabalho relatam que o médico mantém disciplina rigorosa com horários e atendimento, mas nunca trata o paciente como número. “Ele olha para a pessoa, não só para o prontuário”, comentou um servidor da unidade.
Para ele, o compromisso vai além da técnica. “Medicina é ciência, mas também é humanidade. Minha mãe não teve a atenção que precisava. Eu sei a dor de uma família que sai do hospital com a sensação de que poderia ter sido diferente. Por isso eu faço questão de ouvir cada paciente.”
A realidade da saúde pública impõe desafios diários: filas, falta de especialistas, demora por exames. Dentro desse cenário, atitudes individuais não resolvem estruturalmente o sistema, mas fazem diferença concreta na vida de quem depende exclusivamente do SUS.
Moradores do CPA III relatam que o médico se tornou referência no bairro. Há quem espere o dia específico de atendimento para consultar com ele. Outros dizem que já o viram andando pelas ruas da comunidade, a caminho de visitas, carregando bolsa médica e prontuários.
A história pessoal, marcada pela perda, não é explorada por ele como vitrine, mas como lembrança constante da responsabilidade que carrega. “Eu não posso mudar o que aconteceu com a minha mãe. Mas posso decidir como vou tratar cada pessoa que senta na minha frente”, afirmou.
Em tempos de descrédito nas instituições e críticas frequentes ao atendimento público, exemplos como o do médico da UBS do CPA III revelam que a diferença, muitas vezes, está na postura individual diante da missão assumida.
Mais do que cumprir jornada, Marcos Paulo cumpre promessa. A de honrar dois juramentos: o profissional, feito ao concluir a faculdade de Medicina, e o pessoal, feito em silêncio, diante da dor da perda.
E, na rotina simples de um consultório de bairro, entre aferições de pressão, pedidos de exames e visitas domiciliares, ele transforma uma tragédia familiar em compromisso diário com a vida.