Cidade celebra trajetória marcada por resistência, imigração, tradição popular e crescimento econômico às margens do Rio Cuiabá
Da Redação Jota Moreira
A história de Várzea Grande começou oficialmente em meio a um dos períodos mais tensos da América do Sul. Em 15 de maio de 1867, durante a Guerra do Paraguai, a então Província de Mato Grosso decidiu instalar um campo destinado a prisioneiros paraguaios em uma área alagadiça às margens do Rio Cuiabá. A medida foi determinada pelo presidente provincial José Vieira Couto Magalhães, que buscava evitar confrontos entre os detidos e a população cuiabana.
A região escolhida ficava na margem direita do rio e possuía posição estratégica para vigilância e deslocamento militar. O local passou a receber forte presença de soldados responsáveis pela guarda dos paraguaios capturados durante o conflito envolvendo tropas ligadas ao líder Francisco Solano López.
Muito antes da instalação do acampamento militar, porém, o território já possuía moradores originários. Povos indígenas da etnia Guaná ocupavam a área e deixaram marcas profundas na formação cultural da cidade. Conhecidos pela habilidade artesanal, eles deram origem à tradição das redes confeccionadas manualmente, produto que se tornou símbolo histórico da identidade várzea-grandense.
Os Guanás mantinham convivência frequente com bandeirantes e comerciantes que circulavam pela região. Documentos históricos apontam que o grupo indígena chegou a receber terras do Governo Imperial ainda no século XIX, fortalecendo a ocupação do território que, na época, passou a ser chamado de “Várzea Grande dos Índios Guanás”.
Além da presença indígena, a localidade ganhou importância econômica por servir como rota de passagem entre Cuiabá e outras regiões da província. Tropas de gado vindas de Rosário do Rio Acima, atualmente Rosário Oeste, utilizavam o trajeto como corredor comercial até a capital mato-grossense.
Com o encerramento da Guerra do Paraguai, o povoado começou a receber novos moradores. Famílias vindas principalmente de Nossa Senhora do Livramento passaram a se instalar na comunidade, impulsionando o surgimento do comércio e das primeiras atividades econômicas permanentes.
O desenvolvimento urbano avançou nos anos seguintes. Em 4 de julho de 1874, a inauguração da primeira balsa marcou o início oficial da travessia regular entre Cuiabá e Várzea Grande, fortalecendo a integração entre as duas cidades.
A evolução administrativa também ocorreu gradualmente. Em 1886, o povoado foi elevado à categoria de Paróquia por meio de legislação provincial. Poucos anos depois, já contava com cartório, estrutura policial, escolas e serviços eleitorais, consolidando-se como núcleo urbano em expansão.
Nas décadas seguintes, importantes obras aceleraram o crescimento regional. Em 1942, durante a Era Vargas, o então interventor Júlio Müller inaugurou a primeira ponte de concreto ligando Várzea Grande a Cuiabá. A implantação de energia elétrica também contribuiu para o avanço econômico e populacional da cidade.
A emancipação política veio em 23 de setembro de 1948, por meio de lei estadual apresentada pelo deputado Licínio Monteiro. O novo município foi criado a partir do desmembramento de áreas pertencentes a Cuiabá e Nossa Senhora do Livramento. O major Gonçalo Romão de Figueiredo foi nomeado como primeiro prefeito da cidade.
Atualmente, Várzea Grande é reconhecida não apenas pela relevância econômica na região metropolitana, mas também pela preservação de manifestações culturais tradicionais. Festividades religiosas dedicadas a Nossa Senhora da Guia e São Pedro permanecem entre os eventos mais populares do calendário local.
A produção artesanal segue viva na cidade, especialmente com as tradicionais redes confeccionadas manualmente. A culinária também ganhou destaque regional através da conhecida Rota do Peixe, localizada na comunidade de Bonsucesso, ponto turístico procurado por visitantes em busca da gastronomia típica mato-grossense.
Expressões culturais como siriri, cururu, lambadão e a viola de cocho continuam presentes em apresentações populares e celebrações comunitárias, reforçando a ligação da cidade com as raízes culturais de Mato Grosso.
Ao destacar os 159 anos de fundação da cidade, a prefeita Flávia Moretti afirmou que o município mantém orgulho de sua trajetória histórica enquanto projeta avanços para o futuro. Segundo ela, a cidade carrega tradições que permanecem vivas ao longo das gerações e fazem parte da identidade do povo várzea-grandense.